quarta-feira, 9 de junho de 2010

Estrada seca




Uma estrada chamada sonho

Um sonho balançando na frente

que nem doce para criança


O doce saliva a boca

A boca pede um beijo

O beijo fica para outra hora

agora é hora de caminhar


A estrada pede meus passos

Os passos pedem meu amor

Cada raspa, cada gota

espalhadas em linha reta no asfalto quente

escorrem dos pulsos abertos


Gente parada no acostamento

"Moço, dá uma moeda?"

"Desculpa, eu não tenho."

Eu sigo andando descalço


Faz três anos que ela fugiu de casa

foi de mudança para o futuro

suspira, são saudades do dono

O dono angustiado chora uma prece

suspira, são saudades da alma.



sexta-feira, 21 de maio de 2010

O que aconteceu ao gentleman?




Faz tempo e eu nem era vivo, mas o Fred Astaire costumava ser um cara em quem se espelhar. Ele dançava, ele cantava, ele sorria, ele se vestia bem, e ele saía com ninguém menos do que a Ginger Rogers (ah, ela era muito linda...). Mas que inferno! Hoje em dia qualquer um que tenha pelo menos metade dessas características faz, no mínimo, com que as pessoas o olhem de um jeito esquisito.

Então, o que aconteceu afinal com homens como ele? Homens como Astaire, como Sinatra, como Tom Jobim. Gentlemen. Cavalheiros. Eu não sei. Mas, o que quer que seja, aconteceu também com as damas. Façamos uma lista: um gentleman é educado, inteligente, esperto, talentoso, modesto, bem arrumado e culto. Por que será que os caras de hoje têm tanto medo de possuir esses traços de personalidade?

Talvez seja porque eles estejam muito ocupados em ser rudes uns com os outros em público, em ficar bêbados de vomitar e em arrumar brigas na frente das garotas para que – dessa maneira genial – ninguém venha a pensar que eles tenham qualquer tipo de atração por outros homens. Aliás, quem inventou essa idiotice de que os gays são mais bem educados do que os heterossexuais? Qualquer pessoa que conheça uma meia dúzia de gays sabe que eles podem ser (e que de fato são) tão rudes e grosseiros quanto qualquer heterossexual. E qualquer um que saiba quem é Tom Jobim sabe que não há como ser mais bem educado do que aquele perfeito gentleman foi.

Mas e o gentleman? Bem, o cara para ser um gentleman hoje em dia tem que se conhecer bem e ter fé no seu taco o suficiente para ser ele mesmo independentemente do que os outros vão pensar. E então aparece um jeca (ou uma jeca) para nos carimbar o rótulo um tanto pejorativo de “metrossexual”. Não! Ser um homem que tem cuidado com a maneira como se apresenta e com a maneira como lida com as outras pessoas é simplesmente ser um cavalheiro. E ponto.

Os homens de hoje estão perdidos, coitados. Eu tenho visto tantos caras sem saber o que fazer, em dúvida sobre como deveriam agir em determinada situação. E no fim fazendo exatamente o oposto do que seria mais apropriado. Tanta grosseria para esconder tanta falta de confiança... Nossos avôs saberiam exatamente como agir, e os pais deles também, e os pais dos pais deles. A masculinidade está hoje em crise. E isso aconteceu porque a geração antes de nós (a geração “rebelde”) rejeitou noções muito bem estabelecidas como, entre outras, a de que um homem deve se portar como um cavalheiro (vou citar essa palavra 700 vezes). Fazendo isso, jogaram fora coisas boas sem colocar nada de melhor no lugar. Jogaram fora o que os homens levaram pelo menos dois mil anos para desenvolver e que é a maior e a mais bem acabada marca de masculinidade: o cavalheirismo (não é o futebol).

É por isso que os poucos homens que redescobrem o cavalheirismo se sentem mais confiantes consigo mesmos e se tornam homem melhores (sim: melhores). As próximas gerações não têm saída: terão que redescobrir o cavalheirismo para poderem se descobrir homens. Já os homens dessa nossa geração vão, na sua maioria, envelhecer como meninos, como moleques velhos que nunca aprenderam a arte, passada gerações a fio, de como se deixa de ser um moleque e como se passa a ser um homem: enfim, a arte do cavalheirismo.




segunda-feira, 3 de maio de 2010

A banana da bananada





Acho que foi um indígena norte-americano que, num misto de admiração e medo, explicou o que sentia aos colonizadores ingleses: “Se você tem uma tradição e come da carne de outras tradições, você aumenta sua tradição, aumenta o rabo dela. Mas se você abandona sua tradição e passa a comer só da carne de outra, você deixa de ser cabeça e passa a ser rabo: que não sabe para onde vai, apenas segue”.

O indígena estava preocupado com a influência do colonizador. Tinha todas as razões para isso. Mas, além da influência de uma cultura sobre a outra, há divisões internas de uma cultura que também se influenciam – uma divisão desse tipo é aquela imposta pelos que se vêem como possuidores de um gosto superior, mais apurado: entram aí a “alta cultura”, a “cultura erudita”, as “vanguardas” e afins. Essa divisão está representada no mito da rivalidade entre os deuses Apolo e Dionísio.

Apolo e Dionísio são dois dos principais deuses do panteão latino. Deuses de várias coisas, entre elas, da arte. Ambos são considerados os deuses da arte – isso gera muita confusão, mas é a representação mitológica do fato de haver, sob uma única palavra, dois sentidos distintos (mas nem tanto): a arte dionisíaca e a arte apolínea.

Dionísio usa a arte como um meio para alcançar o deleite da carne, o deleite mundano. Aliás, ele é o único importante deus latino que é filho de uma humana.

Já Apolo busca o deleite na contemplação do belo, o deleite divino. Este é o deus daqueles que ficam enojados com a arte de entretenimento e a consideram como indigna ou mesmo como profana, é o caso do crítico de cinema que adora Godard e sente ânsias assistindo “Duro de Matar III”.

Porém, de tempos em tempos, a arte dionisíaca merece o interesse dos apolíneos.

Vejamos o caso da música popular.

O jazz dos EUA, até os anos 20 do século passado, era visto com completo desprezo por aqueles que se pretendiam a elite cultural norte-americana. É nos anos 30 que o jazz começa a ser visto como uma forma “verdadeira” de arte por eles. Aliás, os apolíneos dividem a arte em “verdadeira e falsa”. Os dionisíacos a dividem mais como “divertida e chata”.

O swing jazz foi o ritmo mais popular do mundo em seu tempo e era, como é até hoje, absolutamente desprezado pelos refinados amantes do jazz.

Talvez nunca os apolíneos modernos aceitem o fato de que a maioria das pessoas sempre cultuará a Dionísio. E só. Os gregos lidavam muito bem com isso: chamavam essa incapacidade natural da maioria das pessoas de se deleitarem com o belo de apeirokalia. Viam como um simples fato da vida. A grande maioria não quer o belo: quer o vinho e quer a farra. O swing jazz foi mais popular que o cool jazz não por falta de acesso do povo à cultura, por falta de educação deste, por falta de vergonha na cara ou por qualquer uma dessas desculpas que os apolíneos vivem inventando. O swing jazz, assim como o sertanejo, como a banda Calypso e como o rock’n roll em suas origens (para o estranhamento dos roqueiros de hoje, que são apolíneos) eram mais populares porque eram filhos bêbados, animados e depravados do deus Dionísio – bem do jeito que o povo gosta.

O mesmo aconteceu com o samba carioca. Foi Mário de Andrade que adotou o samba como a pedra fundamental de seu projeto de cultura nacional apolínea. E foi sob a indicação desse bispo da igreja apolínea do Brasil que o samba recebeu então o selo episcopal de “arte verdadeira”. A dedicação dos apolíneos fez surgir o samba canção, abossa nova e parte do que chamamos de MPB.

O melhor disso é que, diferentemente dojazz, o nosso samba – como uma mulata assanhada – deu cria pra todo lado, não só com o belo e garboso do Apolo (como ocorreu com o jazz), mas também com o depravado do Dionísio. Hoje temos o “pagodinho”, por exemplo, que, como todo filho legítimo de Dionísio, possui duas características inescapáveis: a primeira é ser extremamente popular, e a segunda é atrair o mais sincero nojo dos apolíneos. E temos hoje o chamado samba cult, o meio-irmão do outro, mais bem vestido, obediente à mãe e com a cara de sério do pai, Apolo. Como toda cria genuína de Apolo, um primado de virtude e beleza combinado com o absoluto desprezo por parte da sempre filistina massa popular.

Já, aqui em Goiás, nossos apolíneos nunca se animaram em comer da carne cultural local. Nossa chamada “música sertaneja” nunca foi assediada pelo deus Apolo, nunca recebeu dele nem uma cantadinha, um fiu-fiu, um olhar cobiçoso que fosse, nada. Desprezada pelo belo deus, ela só namora o deus bêbado. Nisso, toda sua produção é como que um sinônimo do dionisíaco brasileiro. Falar em música sertaneja hoje é o mesmo que falar em festa, bebidas, alegria, farra, e nem um pingo de pretensão estética – tudo cheirando ao álcool do deus bebum –, aliás, essas são as mesmas coisas que se poderia dizer do swing jazz e do samba carioca nos anos 30.

Registro aqui meu lamento: gostaria de ver os filhos que a música popular goiana daria com Apolo. É um lamento porque sei que não os dará. Os apolíneos daqui satisfazem seus anseios investindo em outras tradições. Goiânia tem uma das cenas de rock mais fortes do Brasil e não é à toa. É uma indignada reação de oposição à própria tradição cultural. E a festa que nossos apolíneos fazem na mesma semana da Festa Agropecuária (a principal festa dionisíaca desse Estado) é chamada de “Bananada”, isso porque simboliza “dar uma banana” para o sertanejo e para o que ele representa. Na verdade, a banana não é para a cultura sertaneja, é para Dionísio (serviria então para o Calypso, a Micareta, o “pagodinho”, a Britney Spears e afins). Dionísio deve vomitar vinho de tanto gargalhar vendo a supremacia que seus sátiros impuseram a toda nossa cultura. Quem recebe a banana é a cultura goiana. Ela fica com a banana do Dionísio na mão.

Marcelo Barra, Fernando Perillo, Maria Eugênia e congêneres são outro caso. Eles são apolíneos da cultura musical urbana goiana novecentista – original principalmente da antiga Vila Boa e de Pirenópolis–, com suas modinhas e serestas. Representam uma sub-cultura goiana preciosa, mas menos pujante – talvez como o choro em comparação com o samba – e que, absolutamente ignorada pelos nossos dionisíacos, também não recebe a menor atenção dos nossos fiéis apolíneos. Abandonada, ela só se mantém sendo artificialmente bancada pelo Estado. Os nossos apolíneos aqui – quase todos – são devotos é do rock’n roll.

O roqueiro que estiver lendo isso talvez pense: “Apolíneos?! Nós somos irreverentes, bêbados e abusados. Somos filhos de Dionísio!”. Não são. Não os de hoje. Esses artifícios que simulam traços dionisíacos estão inseridos numa pretensão estética elitista e quase pedante. Se o rock ainda fosse dionisíaco como foi no início, os roqueiros atuais cuspiriam nele. A obsessão por sentir que fazem parte de uma elite cultural (aliás, o rock’n roll como símbolo elitista é um dos acontecimentos mais esquisitos da história cultural ocidental) os impede de olhar para qualquer coisa verdadeiramente dionisíaca sem o esnobismo de uma princesa de Versalhes.

É aí que me vejo na mesma situação daquele índio apache, pensando no que será dessa nossa cultura sendo que nossos apolíneos – que são as pessoas capazes de dar novas dimensões estéticas a uma expressão artística – se tornaram rabo de outras tradições. O rock aqui não é colocado a serviço da nossa tradição, como Caetano Veloso o fez com a maestria do gênio, nem como mistura enriquecedora, como aconteceu no reggae jamaicano. O rock aqui vem seco, chapado, sem suco pra engolir. Olho para os nossos roqueiros goianos e vejo os meninos japoneses que vi tocando samba – e que mereceram toda a minha complacência, a complacência que reservamos para quem nos é inofensivo e desimportante.

Enquanto isso os dionisíacos aqui ofendem. E importam. E nós ficamos com a banana na mão.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Chiclete. Quero chiclete!

Por Alexandre Fernandes Borges

Bom para ler ouvindo: "Quero Chiclete", de Chiclete com Banana: http://www.youtube.com/watch?v=e-UeiO2EN-8&feature=PlayList&p=BD04667A8AA5E86F&playnext=1&playnext_from=PL&index=27



Jabuticaba era como ela gostava de ser chamada. Isso desde o ano anterior em que ela havia sido eleita a garota jabuticaba do baile funk. Ela fazia questão de lembrar o quanto ela teve que se esforçar para ganhar esse título. Foi a maior realização de sua vida.

Jabuticaba chega ao salão de beleza e mostra a bolsa nova para as amigas. É uma Louis Vuitton, custou 3.000 reais. As amigas ficam admiradas, algumas salivam e engolem inveja. Enquanto retoca a chapinha japonesa com sua cabeleireira pernambucana e pinta suas unhas à francesinha com a manicure boliviana, ela conta às co-emperiquitantes como aquela bolsa é chic, vip, exclusiva, ultra-high-class, e, principalmente, cara.

Pesão chega ao autódromo, a galera já está toda ali: o Bocão, o Cabeção, o Pança, o Mentira e o Fatiôla. A expectiva é das melhores: beijar 70 no primeiro round, quer dizer: no primeiro bloco, que é do Chiclete com Banana; e vir para o segundo tempo com determinação – esse é com o Asa de Águia –, com o lema “70 vira, 140 acaba”. O ingresso-camiseta custou 700 reais para cada um. Segundo o matemático Oswald de Sousa, isso dá um aproveitamento de cerca de 5 reais por gol marcado, quer dizer, por boca... marcada.

Pesão não está indo bem, começou mal, já tocaram duas “Diga que Valeu”, uma “100% Você” e três “Chi... cle... te... oba! oba!” e ele só beijou três até agora. Até o Pança beijou mais que ele. Ele começa a pensar que é um fracassado na vida, que a vida não tem sentido, que ele é um imprestável mesmo, que era melhor ele morrer, e, entre um desses pensamentos otimistas e outro, ele pensa nas 14 parcelas mensais de 102 reais que ele vai ter que pagar por estar ali (ah, os juros...).

Agora o momento romântico de nossa narrativa: eis que – tal qual Romeu e Julieta, Jack e Rose, Júlio César e Cleópatra, Fidel Castro e Hugo Chavez – nossa dupla de heróis se encontra. Ele, romântico, pergunta se ela não caiu do céu, já que era um anjo. Ela acha a cantada super criativa, sorri e puxa assunto: “Acho essa música linda!” – tocava algo como “chiclete para grudar no seu ouvido, para grudar no coração...”. Ele entende o contraponto e continua: “Tô doido pra te beijar!”. Ela se faz de difícil: “Não é assim também não, vamos conversar...”. Ele entendeu novamente: e começou a mentir com uma técnica e uma desenvoltura invejáveis. Em 3 minutos ele já tinha um patrimônio maior que o PIB de qualquer país da América Central. Deu certo: ela agarrou o rapaz como as tietes agarravam os Beatles. Foi lindo. É língua pra cá, mãos “suaves” para lá, coisas “sutis” ditas ao ouvido acolá, e tudo isso ao som de uma trilha sonora de tirar o fôlego (sério).

A coisa ficou tão... “boa” que nosso casal quis abandonar a “festa” para poderem se dedicar mais um ao outro. Vai dizer que isso não é romântico! Ele praticamente trocou 137 mulheres por ela!

Uma das melhores coisas de escrever é que, enquanto escrevemos, temos super-poderes para deixar qualquer X-men com inveja. Um deles é poder ler o pensamento de nossos heróis. Melhor: posso ler e posso contar (sem sentimento de culpa ou processo por danos morais). Pois ele pensava assim: “Eu estava ferrado hoje mesmo, pelo menos vou dar uma...” (pois é, nós homens nem sempre somos tão... “delicados” pensando quanto o somos conversando). Já ela pensava: “Esse cara tem a grana, vou dar um jeito na minha vida.” (se eu tivesse o poder para ler o pensamento de alguma leitora, é capaz que leria agora algo como: “Que horror! Que machista esse autor!!” É, talvez...)

Chegando ao estacionamento, ele apresenta a ela seu carro já "debutante", não tão bem quanto ela quando comemorava seus 15 aninhos 4 anos antes. Nesse instante, da face de nossa bonequinha de luxo, sai uma expressão impossível de traduzir aqui (algo como “que merda é essa?”) e de sua boca saiu a frase: “Você não me disse que era rico?!” (um poço de candura ela). O melhor foi a resposta de nosso herói: “Agora que a gente saiu, você vai comigo, ou vai me pagar meus 700 reais!” (um perfeito cavalheiro). Pois ela meteu a bolsa na cara dele. Ele caiu, bateu a cabeça na quina, desmaiou, sua cabeça começou a sangrar e ela começou a chorar. Um segurança veio correndo lhe ajudar: “O que foi, moça? O que aconteceu? Ela respondeu soluçando com uma carinha comovente de tristeza: “A minha bolsa rasgou.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

"Tristes trópicos"


José Manuel Zelaya Rosales - 1977


Muita coisa se fala sobre Honduras. Para variar, pouca gente sabe do que está falando...

Para ajudar um pouco os palpiteiros de ofício, deixo abaixo alguns trechos bastante “elucidativos” da Constituição de Honduras.

Primeiro de tudo, para quem não sabe lá muito bem o que é uma Constituição, esta é a lei fundamental de um país, a que todos os poderes do Estado estão subordinados. Na maioria das vezes, em um regime democrático, a Constituição protege as minorias e dá segurança jurídica contra os desmandos da maioria.




(CONSTITUÇÃO DA REPÚBLICA DE HONDURAS)


ARTICULO 239.- El ciudadano que haya desempeñado la titularidad del Poder Ejecutivo no podrá ser Presidente o Vicepresidente de la República.


El que quebrante esta disposición o proponga su reforma, así como aquellos que lo apoyen directa o indirectamente, cesarán de inmediato en el desempeño de sus respectivos cargos y quedarán inhabilitados por diez (10) años para el ejercicio de toda función pública.


ARTICULO 2. La suplantación de la Soberanía Popular y la usurpación de los poderes constituidos se tipifican como delitos de Traición a la Patria. La responsabilidad en estos casos es imprescriptible y podrá ser deducida de oficio o a petición de cualquier ciudadano.



ARTICULO 4.- La forma de gobierno es republicana, democrática y representativa. Se ejerce por tres poderes: Legislativo, Ejecutivo y Judicial, complementarios e independientes y sin relaciones de subordinación.


La alternabilidad en el ejercicio de la Presidencia de la República es obligatoria.


La infracción de esta norma constituye delito de traición a la Patria.




(CÓDIGO PENAL DE HONDURAS)



ARTICULO 310-A. Los delitos de traición a la Patria tipificados en los Artículos 2 y 19 de la Constitución de la República serán sancionados con la pena de reclusión de quince (15) a veinte (20) años.




Vai planeta!


Mais uma dos ecobobos. Agora, um dos gurus da seita, um físico de formação, e ecobobo de religião, de Harvard chamado Alex Wissner Gross, veio criticar a Google dizendo que a busca do Google ameaça o planeta Terra com uma possível inundação com CO2. Nas palavras do sacerdote: “A Google opera grandes Datacenters espalhados pelo mundo e isso consome uma grande quantidade de energia”.


A sensação que tenho quando leio essas “coisas” é de querer simplesmente fazer uma careta e esquecer que isso invadiu meu ouvido. No entanto, essas coisas absurdas são as que mais urgentemente precisam ser respondidas, pois são tão simples e obtusas que correm sério risco de pegar. Aliás, eu não tinha essa sensação de asco intelectual desde que me peguei lendo sobre a defesa da abolição dos papéis higiênicos macios de dupla face em que se esmiuçava como isso provocava não sei quantos cortes de árvores, e que a aspereza desagradável à nádega proveniente do puro e casto papel reciclado tornava este menos competitivo diante dos maciinhos e cheirosos, e que aceitar tal “aspereza” na retaguarda do papel vagabundo ecobobo tinha que ser um impositivo legal! Corri no banheiro e fiquei aliviado de ver que, pelo menos por enquanto, isso não pegou.


Voltando à pregação do sacerdote ecobobo de Harvard, ele ainda vai mais longe e critica praticamente a Internet como um todo. Afirma que o desenvolvimento acelerado de datacenters que são o suporte da expansão da rede promove o mesmo “pecado” a que ele atribuiu à Google. E a coisa assume ainda mais o ar de pecado quando ele começa a citar outras grandes estruturas, como a do Twitter e do Second Life, dizendo que estes possuem um grande “custo-carbono” e que estariam sendo motivados por entretenimento, por ferramentas que “não são sérias”, ou seja, motivos não nobres, motivos pecaminosos mesmo.


Olha, pessoalmente, nunca usei o Twitter, desconheço-o o suficiente para nem saber o que pensar dele. Já o Second Life, conheço-o à cota suficiente para detestá-lo com a bílis da minha alma, sinceramente penso que aquilo poderia simplesmente sumir da face da Terra. No entanto, defender que estas ferramentas não deveriam existir porque não são ferramentas “sérias” e que, portanto, não merecem o carbono que gastam é uma verdadeira inquisição ecoboba.


Poucos dias depois das declarações do ecochato, a Google teve que se dar o trabalho de explicar em seu blog oficial aquilo que qualquer físico, mesmo dos mais medíocres, já deveriam reconhecer de pronto: que a Google, assim como os outros meios similares da Internet, utilizam uma tecnologia de armazenamento e busca de informações exponencialmente mais eficientes e menos poluidores que os demais disponíveis. Imagine se todas as pessoas tivessem ainda que ler tudo em jornais, revistas, livros e ainda tivessem, sempre que quisessem buscar uma informação, pegar um carro e ir até a biblioteca mais próxima (ou seja, nada próxima). Aí nós veríamos os ecobobos baterem de frente com os grupos que tentam promover e expandir a leitura de livros (estas sim do meu time) e afirmar que ninguém mais poderia ler Paulo Coelho ou Harry Potter, porque essas não eram obras com estatura artística suficiente para compensar seu “custo-carbono” e que, tirando as sedas para fabricação de crigarrinho do capeta (que disso eles nunca reclamariam), nenhum outro uso menos “sério” de papel deveria ser permitido.


Enfim, os fatos não ajudam os ecobobos, mas eles precisam de uma fé para viver. Em vez de procurar uma igreja para gastar esse talento místico-missionário, ficam aí enchendo nossos ouvidos dessas asneiras de quem teve overdose de desenho do Capitão Planeta.


Pois quem não engole essa xaropice verde, convido que encha os pulmões e entoe o grito de liberdade: “Vou continuar limpando minha bunda nos papéis mais macios!!”, “e vou continuar enviando meus emails de piada de gordo pro Zé Pança! E meus textos que ninguém lê para o blog do bêbado! E fod....” Essa última parte é opcional... E , enquanto isso, em alguma roda de maconha, e pela união de seus poderes...


Vai Planeta!!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Bonitinha, mas ordinária



Bom para ler ouvindo: Last Nite - The Strokes

Estes dias recebi um convite para uma espécie de show de rock misturado com exposição fotográfica. O fato da autora do evento ser amiga minha e namorada de um dos meus melhores amigos me levou a dar mais atenção ao convite. Não fosse por isso, não iria. Não, nem a pau. Minha relação com essas “artes” (fotografia e rock) é complicada (eufemismo). As aspas já indicam isso...


Gostaria de resumir o que as artes, de maneira geral, significam para mim. Mas, para ser justo, teria que explicar com detalhes minha fixação per essa habilidade do ser humano de se aproximar do divino, teria que contar das minhas coisas com Stendhal, por exemplo, como quem conta sua estória com uma namorada por quem se apaixonou. Enfim, não vem muito ao caso. No entanto, entre as artes que mais desconheço (e menos me interesso) está a fotografia. Não fosse pela chamada “dança contemporânea”, seria a última definitivamente. Mas, na verdade, isso é bom. Bom porque me ensina que o cara dizer (como já me disseram muito) que Machado de Assis é chato e que Miles Davis dá sono, é um ato (criminoso hediondo) que eu também cometo... em assuntos diferentes. Pois em matéria de fotografia, eu sou o cara que escuta Calypso e assiste filme do Steven Seagal.


Mas o mais interessante foi o insight que me desconcertou enquanto eu olhava as fotos. O insight eu prefiro contar com detalhes.


A exposição se chama “Rock Years”, o tema é basicamente o rock’n roll estilizado no visual de meninas lindíssimas. Então uma coisa bateu com força na minha cara: não é que o rock ficou bonitinho fofo cuti cuti? É isso mesmo, e, desde os também cuti cuti dos almofadinhas festivos de Liverpool, este gênero não se apresentava vestido assim.


Depois da decadência bêbada do paz, amor e um pouco de overdose da década de 70, da revolta acho-que-é-bonito-ser-feio (e fedido... e rasgado... e anarquista) dos punks nos 80 e da sessão cafono-cabeluda de gritinhos agudos do metal, o rock passou a ser cult – isso já há algum tempo e que já me causava estranheza. O rock... cult (!)... (?)... (?!!). Enfim, mas isso já não é mais, agora uma nova guinada: o rock é... uma gracinha. E eu não estou citando Hebe Camargo.


Não é aquela “gracinha” decidida e desabusada das “patricinhas”, é uma gracinha inconformada, que mistura um pouco de “sou rebelde e sou linda por acidente” com outro tanto de “nem estou ligando para ser bonita... mas sou!”. Tem um pouco a ver com o “ser comportado” ter saído de moda. Em momentos como esses é que surgem frases inéditas como “o mundo dá voltas”. Enquanto as meninas da década de 60 faziam de tudo para esconder os risquinhos no lustre de seus comportamentos, hoje é assim: mesmo quem é mais comportado que um cachorro em canoa tem que fingir por tudo que não é – para não perder o charme...


Enfim, no melhor estilo Nelson Rodrigues, a roqueira de hoje é bonitinha, mas ordinária. Pelo menos na aparência...