quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Às 3 da manhã



(Buste de Femme - Auguste Renoir - 1874)

Quando penso nela, minha vontade era ser poeta.

Poeta pra colocar no papel tudo o que ela, como quem rouba um beijo, coloca no meu peito.

Poeta pra transformar em tinta cada gota da química que nos passa pelos poros quando estamos juntos e que, por um caminho secreto, vão parar na alma.

Poeta pra traduzir em palavras a cor de seu sorriso naquele dia, pra misturar nossos nomes como misturamos nossas pernas. Poeta pra pintar com letras o contraste daquela pele com aquele cabelo que me fazem parar tudo e só olhar...

Poeta pra destilar em perfume cada aroma de poema que existe nela, e, depois do vinho, sussurrar tudo em seu ouvido às três da manhã.



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Entre Sandy e Simone de Beauvoir


Como eu sei admirar as pessoas autênticas! A pessoa autêntica é aquela que em algum momento decidiu desenvolver sua própria personalidade ao máximo.

Minha ideia aqui é explicar o que entendo por autenticidade. Para isso cito duas pessoas absolutamente diferentes, mas com uma só coisa em comum: a autenticidade. Essas pessoas são Sandy e Simone de Beauvoir.

Você deve ter dito agora: Sandy?!! Sim: Sandy. A irmã do Junior, filha do Chitãozinho e Xororó (para mim é filha dos dois, porque eu nunca sei de qual dos dois...). A autenticidade de Simone é hoje mais do que reconhecida: a instigante esposa de Sartre, que quebrou todas as convenções que não lhe faziam sentido, que criou uma nova maneira de ser mulher, de ser esposa, de ser francesa, de ser humana. Mas a autenticidade de Sandy é muito pouco reconhecida... ainda. As mesmas pessoas que elogiam Simone criticam Sandy. Nem toda pessoa muito criticada é autêntica, mas toda pessoa autêntica é muito criticada. Simone foi muito criticada em sua época também. Hoje topei com esse desabafo da Sandy: “Não sou frágil como imaginam, é que engano porque sou pequenininha.”

Há um bom tempo que penso em fazer uma espécie de "ode à Sandy". Não pela sua beleza. Acho ela uma gracinha - mas não a ponto de lhe dedicar uma ode por isso. Faço uma ode à sua personalidade.

Para entender o que eu vejo na personalidade da Sandy, você precisa analisar o contexto em que ela vive. Depois que a Madona inventou – e a Britney Spears comprovou – que cantora que dá uma de “perva” faz mais sucesso, toda cantorazinha bonita que surge tem que se esforçar ao máximo para parecer que é pelo menos 3 vezes mais piranha que a moça que está rodando bolsinha na esquina. Imagino quantas vezes a Sandy – pelo menos desde os seus 14 ou 15 anos – teve que recusar o “conselho profissional” de marqueteiros e agentes desse ramo de que ela deveria fazer uma cara de vagabunda em algum videoclipe para tentar vender mais discos, ou de mostrar o apêndice num ensaio sensual na Revista Putas para aumentar seu cachê nos shows.

Não estou querendo dar uma de puritano, meu assunto aqui é autenticidade: se a personalidade, os valores, a história, enfim, se aquilo que faz da Sandy a Sandy combinassem com o jeito “safadinha” de ser, aí seria extremamente autêntico ela posar nua em revista, participar seminua de reality show... Mas aí ela não seria a Sandy.

O pior é quando, em vez de autenticidade, enxergam falsidade no jeito da Sandy. Já vi várias pessoas dizendo: “Ela quer dar uma de santa!”. Se minha intuição é tão boa quanto eu acho que ela é, a Sandy lida muito bem com sua sexualidade, mas entre quatro paredes, e com o marido dela. O que as pessoas têm que entender é que ela é uma mulher que foi criada com muito cuidado por pais bastante conservadores, e que ela herdou dos pais esses valores. Se ela resolvesse fingir ser quem não é para “agradar” quem a chama de “santinha do pau oco”, aí sim ela estaria praticando uma violência contra si. Violência essa que quase todas as pessoas cometem o tempo todo simplesmente por não se conhecerem, por não se respeitarem, simplesmente por não serem autênticas como são essas grandes mulheres pequenininhas Sandy e Simone de Beauvoir.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

As meninas de hoje


Era o primeiro dia de aula quando ele a viu pela primeira vez, sentiu uma coisa que nunca tinha sentido e pensou: “Eu acho que vou amar essa menina pra sempre.” Dia seguinte, a professora: “Paulo Henrique, sua redação foi a melhor. Venha aqui na frente e leia para nós.” Ele lê. Voltando para a sua carteira, ele passa olhando nos olhos dela, pareciam ainda mais lindos. Ela retribui com um olhar doce e diz: “Redaçãozinha de amor, que podre!”

domingo, 29 de agosto de 2010

Superman e o anel dos nibelungos




O que penso dos EUA é que eles são uma nação admirável. Eu sei que isso deve ter soado, para a maioria de vocês, algo como que ofensivo, ou estúpido, se não ambas as coisas. Sem dúvida mais ofensivo do que se eu estivesse elogiando países como a Coréia do Norte, o Iran ou o Sudão.


Um país, só isso

No entanto, eu vejo os EUA como aquilo que eles são: não uma organização internacional, não uma ONG, nem uma segunda Santa Sé. Os EUA são um país, e, como tal, são conduzidos por um presidente da república e não pelo papa, nem pelo Dalai Lama. Sendo um país como qualquer outro, sua política externa é voltada para a busca dos interesses nacionais.

O que nubla a percepção de muita gente é a ideia de que os EUA deveriam atuar em busca dos interesses da humanidade, ou segundo princípios de bondade ou justiça, ou seja, como se fossem o superman mesmo: em defesa dos fracos e oprimidos e por causa do mais puro altruísmo.

Mas o superman não existe. Nem o papai Noel. E se você tem mais de 7 anos de idade, também não deveria acreditar mais nisso.


Complexo de superman

No entanto, o superman diz muito sobre a ideia que os americanos fazem de si mesmos, e, o que é pior, sobre a ideia que as pessoas no resto do mundo fazem de como deveria agir os EUA. Esse é o que chamo de complexo de superman.

Essa mania de analisar a política externa norte-americana em bases morais é uma criação dos próprios norte-americanos. Desde Woodrow Wilson os EUA insistem em justificar sua política externa em termos morais, fundamentando-a em altos princípios de justiça.


As prostitutas e a falsa virgem

A insistência dos norte-americanos nessas justificativas morais – muitas vezes pouco consistentes – fortalece o antiamericanismo latente no mundo. O antiamericanismo não é fruto disso, mas ganha com isso muito combustível para queimar. Países com políticas externas absolutamente amorais ou mesmo imorais se arvoram o direito de criticar a política externa americana justamente em termos morais – é a história das prostitutas falando mal da falsa virgem.


A relação entre democracia e moralidade

No entanto, as democracias impõem uma nova variável no estabelecimento do que é o interesse nacional: a opinião pública – esta fez com que a política externa americana acabasse adotando de fato alguns princípios de moralidade.

Foi a democracia norte-americana que impediu a materialização de um império mundial sob seus pés durante os seis anos após a II Guerra em que os EUA gozaram de um monopólio nuclear. Refiro-me ao conceito clássico de império, cujo maior expoente foi Roma, não ao conceito contemporâneo forjado por Lênin. Uma política externa tradicional, que não tivesse que agradar a opinião pública interna, teria usado essa abissal superioridade militar para simplesmente forçar na marra a manutenção desse monopólio nuclear, o que daria ensejo à formação de um império mundial de facto.


A renúncia ao império mundial

O erro de alguns analistas em perceber essa situação do pós-guerra é pensar que os EUA teriam que fazer uma guerra contra a URSS para impor a manutenção desse monopólio.

Um pouco de conhecimento estratégico desfaz essa idéia. Em um período em que os EUA já dispunham de dezenas de bombas nucleares com plena operacionalidade aliada a uma então imbatível superioridade aérea, isso não seria uma “guerra”, seria uma “operação diplomático-militar” de bombardeios nucleares e ofensivas diplomáticas sucedidas por mais bombardeios nucleares e mais ofensivas diplomáticas. Eles não teriam que invadir, teriam apenas que começar a destruir as principais cidades russas até forçá-los a “cooperar”. Hiroshima e Nagazaki provam tanto a viabilidade militar quanto a inviabilidade política dessa estratégia nos EUA, pois a terrível impopularidade que essas ações no Japão gozam até hoje nos EUA – sem falar do complexo de culpa crônico que gerou nos americanos – provam que nenhum presidente americano se sustentaria no poder se tentasse empreender uma política tão imoral.


E se o “anel dos nibelungos” caísse em outras mãos?

uma política externa tradicional, sustentada por um país tradicional, teria imposto tal império com uma facilidade constrangedora. Como exercício didático, basta imaginar o desenrolar da História caso o destino tivesse premiado com esse monopólio as mãos alemãs (não obrigatoriamente as dos nazistas), ou se esse privilégio coubesse aos soviéticos. Esse exercício pode se alongar indefinidamente, se começarmos a imaginar que utilização seria dada a essa ferramenta pelos franceses, pelos italianos, pelos britânicos, ou mesmo pelos argentinos, chineses ou japoneses... Esse exercício, quando feito por alguém com imaginação ponderada, deixa claro a excepcionalidade da política externa norte-americana.


Um mundo cheio de países

O fato que passa despercebido é que a opinião pública norte-americana funciona como um colchão moral que amortece os rigores da utilização do vasto poder daquele país. No entanto, não elimina esse poder nem retira os interesses nacionais do centro de sua condução política – o que é natural.

Tendo claro a distância de poder que separava os EUA do resto do mundo no período imediatamente posterior à II Guerra, fica claro que o fato de o mundo possuir hoje cerca de 190 países com o direito de hastear uma bandeira, ter um hino nacional e se dizer independente, e desses pelo menos 9 poderem provar essa independência na marra se perciso, isso é consequência de um capricho do destino chamado Estados Unidos da América.



quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Meus temas recorrentes



Escrevendo esse blog, ficou mais claro para mim que tenho certos temas recorrentes. Mas acho que todo mundo tem seus temas recorrentes, aqueles assuntos que vira e mexe se está pensando sobre e discutindo a respeito. Acho que os temas recorrentes de uma pessoa dizem mais sobre ela do que suas origens, sua história e sua família. A análise do porquê de esses temas serem tão importantes para uma pessoa é um prato cheio para qualquer psicanalista. Eu não sou psicanalista, não sei me analisar. Mas pelo menos consigo listar meus temas recorrentes. Eles são três.

O primeiro eu intitulei carinhosamente de O Muro de Berlim. O embate entre esquerda e direita é uma verdadeira obsessão minha. Infelizmente isso raramente é de grande interesse para as outras pessoas, o que faz com que esse assunto seja responsável por pelo menos 80% dos momentos em que eu sou considerado “um saco”. Mas eu simplesmente não consigo me conter, quando vejo estou falando sobre isso e as pessoas saindo de perto como se eu tivesse soltado um pum. Principalmente porque, no Brasil, ou as pessoas são despolitizadas ou são de esquerda, e minha obsessão é sempre explicar por que eu considero os líderes de esquerda (Stálin, Mao Zedong, Pol Pot, Fidel Castro) uns genocidas filhos de uma p.... Meus textos sobre esse assunto são os menos comentados (e lidos) – o que é compreensível.

O segundo eu chamo de Guerra dos Sexos. As diferenças entre homens e mulheres e a relação entre esses seres de Marte e de Vênus me interessam mais do que o chocolate interessa às mulheres. Felizmente, nesse caso, a maioria das pessoas também compartilha desse interesse. Conscientemente, quando quero me divertir e divertir quem está perto, toco nesse assunto. Meus textos sobre isso são os mais lidos e comentados também. Talvez eu devesse escrever mais sobre isso...

O terceiro eu chamo de Crepúsculo do Macho. O estereótipo que as pessoas fazem da figura masculina e a maneira como um homem deve se portar para ser visto como viril é algo que me interessa simplesmente porque eu não concordo com a visão geral e nunca me enquadrei nela. Eu nunca fui aquele macho típico goiano que coça o saco e cospe no chão e nunca achei que devesse ser assim, aliás eu me recuso. Ser educado e fino hoje (pelo menos em Goiânia) é pedir para as pessoas acharem que você é gay – o revoltante não é imputarem uma homossexualidade que não existe e sim essa ideia de que só os gays e as mulheres têm o direito de serem finos e educados. O que foi feito de James Bond e Fred Astaire afinal?! Mas esse é um assunto no qual eu penso muito mas discuto pouco porque eu tendo a perder a paciência com quem eu estou discutindo e agir com mais grosseria do que nenhum macho típico goiano seria capaz.

Por fim, um dos meus maiores interesses é saber quais os temas recorrentes das pessoas ao meu lado. Já notei que quase ninguém sabe conscientemente quais são os seus próprios temas. Portanto, não adianta perguntar, eu tenho que observar e descobrir. Eu sei quais os temas recorrentes dos meus amigos próximos melhor do que eles mesmos. Tenho um amigo que tem obsessão pelo que ele chama de “estilo” (estética, aparência), outro que filosofa o dia inteiro sobre “como curtir bem a vida” e um outro que pensa o tempo todo em sexo.

E você? Quais são seus temas recorrentes? Eu adoraria saber...

terça-feira, 13 de julho de 2010

Associação dos Personagens de Piada Desempregados




Nós da Associação dos Personagens de Piada Desempregados gostaríamos de registrar o descaso das autoridades com a nossa situação. Desde que o pessoal do MPC – Movimento Politicamente Correto – surgiu, nossa situação vem piorando a cada dia.


O que vem nos mantendo minimamente é que temos nos apoiando uns nos outros: contando piadas uns dos outros.


A loira conta piadas de português para o português, conta para ver se o português explica, porque ela também não entende... A situação para os dois é ainda mais difícil porque eles disputam a mesma fatia do mercado. Ela começou perguntando para o gaguinho, mas não deu muito certo...


O português explica as piadas para a loira com as interpretações mais absurdas enquanto o judeu filma essa cena impagável e coloca à venda no Mercado Livre – aliás ele manda dizer que aceita todos os cartões, basta mandar os cartões pelo Correio com as respectivas senhas.


O negro saiu da cadeia pela terceira vez... por contar piada de preto, mas foi porque ele só sabe contar piada de preto – crime imprescritível, inafiançável, quase inenarrável. Para não ter mais problemas com a lei, ele anda pegando aulas com o gordinho, que inclusive só sabe contar piadas de gordo também (o que é bem melhor: não dá cadeia). É triste a situação do gordinho: com a crise, ele pode até passar fome e emagrecer... Aliás, ele já comeu todos os papagaios do grupo, o que causou uma perda inestimável...


O único que ainda não passa por sérias dificuldades é a bichinha: Ela comenta: “Bofe, escândalo! Bafôn! A barbie aqui, absoluta, ne-ces-sá-ria, não ia nunca se juntar a essas bagaceiras, horroroooooozas, bi! Não inveja, se joooga!!”.



quarta-feira, 9 de junho de 2010

Estrada seca




Uma estrada chamada sonho

Um sonho balançando na frente

que nem doce para criança


O doce saliva a boca

A boca pede um beijo

O beijo fica para outra hora

agora é hora de caminhar


A estrada pede meus passos

Os passos pedem meu amor

Cada raspa, cada gota

espalhadas em linha reta no asfalto quente

escorrem dos pulsos abertos


Gente parada no acostamento

"Moço, dá uma moeda?"

"Desculpa, eu não tenho."

Eu sigo andando descalço


Faz três anos que ela fugiu de casa

foi de mudança para o futuro

suspira, são saudades do dono

O dono angustiado chora uma prece

suspira, são saudades da alma.